A via-crúcis de Obama

É CORRESPONDENTE DA , NEWSWEEK NO BRASIL, , COLUNISTA DO ESTADO , E EDITA O SITE , WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, É CORRESPONDENTE DA , NEWSWEEK NO BRASIL, , COLUNISTA DO ESTADO , E EDITA O SITE , WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS –
O Estado de S.Paulo / Internacional
 

Não faz tanto tempo que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, saiu da aguerrida capital americana e embarcou no Air Force One rumo ao sul. Contrariando os desafetos da ultradireita, e mesmo com o mundo árabe em chamas, dedicou cinco dias à América Latina – com destaque para o Brasil. No seu melhor estilo diplomacia-charme, citou Jorge Benjor. No Rio, teceu loas à Cidade Maravilhosa e brindou o futuro do país, “líder regional e cada vez mais um líder global”.Desde então, o governo Obama reforçou a ajuda ao México, acossado pelo narcotráfico. E acaba de desengavetar a proposta de criar uma zona de livre comércio entre os EUA e a Colômbia (e outro com Panamá), tratado que estava emperrado há anos. Parecia um belo presságio para as relações com a região e, quem sabe, para uma primavera americana.

 Agora parece mais um veranico. Com a União Europeia em farrapos e a economia dos Estados Unidos no chão, a guerra de soma zero no Afeganistão e o próprio mandato de Obama ameaçado, as prioridades de Washington passam longe daqui. Há quem diga, com fundamento, que é melhor assim, ficar alheio às atenções de Washington, do que na sua mira.

 No entanto, com Obama havia expectativas bem maiores. Claro, não estamos mais na masmorra dos anos 50, quando a Guerra Fria pautava o mundo e Richard Nixon, então vice-presidente dos EUA, disse com todas as letras: “As únicas coisas no mundo que importam são China, Rússia e Europa. As pessoas não dão a mínimo para América Latina.” Os venezuelanos, pelo jeito, discordavam e, no ano seguinte, deram o troco, apedrejando a comitiva de Nixon em Caracas. A sequência traduziu bem os tempestivos humores hemisféricos da época.

 Diferente de Nixon, Obama deixa claro seu apreço pelos vizinhos, mesmo que o pouco que tenha feito demonstre isso. A reforma da imigração, a maior pauta entre EUA e México, não avançou. O muito encenado degelo das relações com Cuba ficou no freezer. E o tão esperado aval americano ao poder ascendente do Brasil, que Brasília imaginou que poderia se converter na cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, ficou nas belas palavras.

 Sim, foi no seu governo que os tratados de livre comércio com Colômbia e Panamá (e também com a Coreia do Sul) finalmente decolaram, mas a iniciativa era do seu antecessor, George W. Bush, e só ganhou asas em Washington graças à ascendência do Partido Republicano, cujas demandas Obama agora é obrigado a ouvir e atender. Dois terços de seus partidários democratas votaram contra a medida. Parte da culpa do esfriamento das relações Norte-Sul cabe à América Latina, que muitas vezes carregou nas tintas antiamericanas, até mesmo durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 O problema maior é a falta de imaginação política de Obama e o tamanho do atoleiro em que seu governo se encontra. Três anos atrás, ele assumiu como o grande conciliador, a esperança que prometia juntar adversários e amaciar o venenoso debate político de Washington. Hoje, ele desperta o ódio da direita e a desconfiança dos aliados do centro-esquerda democrata. 

Os manifestantes do movimento de Wall Street querem vê-lo longe, mesmo que ele os bajule. O mesmo vale para um número cada vez maior de eleitores independentes, o fiel da balança na eleição americana. 

O fato é que o mandato de Obama já acabou. Não que ele corra perigo de ser derrubado ou de desistir da presidência. Pode até ser reeleito, por carência de rivais republicanos à altura. Mas ninguém espera qualquer outra iniciativa de peso de Washington antes do fim de 2012, muito menos na América Latina.

 

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