Governo admite corrigir IR, mas reafirma R$ 545 para mínimo

Fonte: BRENO COSTA – VALDO CRUZ – DE BRASÍLIA -FOLHA. COM

O governo admitiu ontem, após reunião com as centrais sindicais, corrigir a tabela do Imposto de Renda Retido na Fonte, uma das principais reivindicações dos sindicalistas.

No entanto, manteve posição fechada em relação ao reajuste do salário mínimo, reafirmando que será enviado ao Congresso uma proposta de reajuste para R$ 545.

Em reunião com as seis centrais sindicais no Palácio do Planalto, na tarde de ontem, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) deixou claro que a discussão sobre a correção da tabela do IR é o ponto mais passível de negociação com as centrais, que reivindicam 6,46% de ajuste.

Segundo Carvalho, “a tendência do governo” é trabalhar com uma correção de 4,5% –núcleo da meta de inflação durante o governo Lula.

A possibilidade de correção da tabela do IR estará no topo de uma nova reunião com as centrais, marcada para a próxima quarta-feira (2).

Ao afirmar que “essa é a tendência” do governo sobre a correção da tabela, Gilberto Carvalho ressaltou que o governo não vai vincular uma eventual ajuste no imposto à negociação sobre o aumento do salário mínimo.

“O governo nunca falou em trocar uma coisa pela outra”, disse o ministro.

Neste ponto, o governo manteve a proposta de R$ 545, mas deixou indicado, segundo relato de representantes das centrais, que o Congresso poderá ser o fórum para a discussão do valor final. Gilberto Carvalho não quis falar da posição da presidente Dilma Rousseff acerca de um eventual veto na hipótese de o Congresso fazer passar um valor acima do planejado pelo governo.

“Não queremos pensar nessa hipótese. Nós achamos que o Congresso será sensível à proposta do governo, esperamos vencer no Congresso essa proposta”, disse.

A proposta a ser enviada pelo governo ao Congresso será de R$ 545, segundo o ministro. O governo está amparado no cumprimento de acordo firmado com as centrais em 2007, pelo qual o reajuste do salário mínimo seria calculado sempre pela variação do PIB de dois anos antes, mais a variação da inflação do ano anterior.

Com o impacto da crise econômica de 2008 no PIB de 2009, o reajuste previsto para este ano ficou aquém do que desejavam as centrais sindicais.

“Esse é um governo que cumpre acordos”, afirmou Gilberto Carvalho, usando o argumento central do governo para não ceder na questão do salário mínimo. “”O problema é que qualquer número diferente daquele do acordo abre uma discussão infindável, onde você pode entrar numa feira do imponderável.”

Ao mesmo tempo em que se manteve firme na discussão sobre o valor do mínimo, o governo se comprometeu a enviar para o Congresso uma medida provisória formalizando a regra atual de reajuste até 2015. A promessa foi bem recebida pelas centrais.

Ao final da reunião, da qual também participaram o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, e o ministro Carlos Lupi (Trabalho), os sindicalistas mantiveram a defesa dos R$ 580, mas reconheceram reservadamente que o governo dificilmente passará de R$ 550 e que devem aceitar este número final.

As centrais estão dispostas, inclusive, a descontar o aumento adicional do reajuste previsto para 2012, que deve ficar entre 12% e 13%.

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Empresas buscam funcionários ‘inovadores’

Pesquisa da americana GE mostra que fator número um para a inovação é a contratação de pessoas criativas.

Fonte:Fernando Scheller, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Uma pesquisa mundial com mil executivos feita pela gigante americana GE mostrou que, na hora de inovar, as pessoas são o principal bem de uma empresa. Tanto na média dos 12 países incluídos na pesquisa quanto entre os brasileiros, o principal fator apontado para garantir a constante inovação em processos e produtos foi a contratação de funcionários que não tenham medo de apresentar ideias novas.

No Brasil, as respostas evidenciaram também que o mercado é especialmente carente de ideias inovadoras. Dos cem executivos brasileiros ouvidos pela GE, 89% responderam que existe um “apetite” social pela inovação; na amostra geral, que inclui vários países desenvolvidos, o porcentual cai para 77%.

Para Beth Comstock, principal executiva de marketing da GE, a pesquisa sobre inovação tem a função de validar o direcionamento da empresa em diferentes mercados. No caso do Brasil, diz ela, o levantamento deixou claro o otimismo da classe empresarial sobre o futuro econômico do País e também o importante papel que a inovação terá nessa expansão. “Os executivos estão cientes de que as pessoas criativas são necessárias. É o que fazemos na GE: buscamos pessoas de diferentes estilos e pontos de vista sobre a vida.”

Segundo a executiva, a pesquisa em 12 países, que pela primeira vez incluiu mercados emergentes – antes, era feita só na Europa –, serviu para mostrar que, cada vez mais, as soluções inovadoras terão caráter local. “As soluções terão de ser multilaterais, não existe uma forma que sirva a todos os mercados. Nesse novo formato, as empresas terão de estar preparadas para um novo tipo de interação – e até estar preparadas para colaborar com seus principais concorrentes.”

Nas empresas com perfil inovador, a busca por profissionais inovadores é só o primeiro passo para a criação de novos processos e produtos. Para o diretor de comunicação do Google Brasil, Felix Ximenes, é preciso também criar o ambiente para a criatividade aflorar.

Liberdade

No caso do Google, diz ele, isso se traduz em horários flexíveis e no respeito às características individuais: “Aqui, as pessoas podem trabalhar em casa, em uma sala sozinhas ou em um grupo. Cada um pode criar de seu jeito”.

De acordo com o executivo, é possível encontrar o candidato com as características certas em processos seletivos. “Não buscamos gênios, mas sim pessoas com capacidade criativa, inquietude e que se interessem por coisas novas. E temos técnicas e estímulos para detectar isso durante a entrevista”, diz Ximenes.

O grupo mineiro Algar, que atua nas áreas de telecomunicações, serviços, turismo e agronegócio, incentiva a inovação por meio de programas destinados a processos produtivos e ideias de negócios. Desde 2001, a empresa investiu R$ 37 milhões nas iniciativas de inovação. Segundo o vice-presidente de talentos humanos da companhia, Cícero Domingos Penha, a arrecadação com mais de mil sugestões apresentadas no período foi bem maior: R$ 254 milhões.

O executivo diz que a meta para 2011 é “turbinar” o programa, incentivando a apresentação do pacote completo. “Além de conceber a ideia, queremos que os funcionários se responsabilizem pela operação do projeto”.

Fórum de Davos reflete angústia com riscos que ameaçam retomada global

Melhora da economia tem como pano de fundo forte insegurança, causada por fatores que vão do déficit americano à alta dos alimentos.

Fonte: Fernando Dantas, enviado especial de O Estado de S. Paulo

DAVOS – O mundo está indiscutivelmente melhor que há um ano, mas não faltam riscos ameaçando as perspectivas de recuperação da economia global.

Os mais citados no primeiro dia do Fórum Econômico de Davos foram o desequilíbrio fiscal dos Estados Unidos, a crise dos países periféricos da Europa (que ameaça chegar aos centrais, como a Espanha), as turbulências políticas causadas pela alta dos alimentos, especialmente no Oriente Médio, e a capacidade de os principais emergentes, como China, Índia e Brasil, realizarem um “pouso suave” de suas economias superaquecidas.

Além disso, como causa mais profunda de quase todos esses problemas, há a persistência dos grandes desequilíbrios macroeconômicos globais, levando a guerras comerciais e cambiais, e à grande volatilidade nos mercados financeiros. E, como falha mais gritante da recuperação, a crise do emprego nos países ricos persiste. “Há uma recuperação dos lucros, dos negócios e da bolsa, mas não há uma recuperação do emprego”, disse Philip Jennings, secretário-geral da UNI Global Union, que representa 900 sindicatos e 20 milhões de trabalhadores no mundo.

O célebre economista Nouriel Roubini, que previu a crise das hipotecas subprime, iniciou ontem sua apresentação em Davos usando a velha comparação com o copo meio cheio ou meio vazio. Em diversas apresentações, foi possível notar que o copo meio cheio diz respeito especialmente à exuberância das grandes economias emergentes e à surpreendente recuperação dos lucros das maiores empresas americanas, que têm hoje entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões, segundo as cifras mencionadas no Fórum Econômico Mundial.

A própria recuperação americana, que ganhou fôlego com os últimos indicadores, também é apontada como um dos principais pontos positivos do atual cenário. Mas há preocupações quanto à sua firmeza, mesmo no curto prazo, sem falar do problema estrutural do déficit público. Outro destaque é que a retomada americana vem com políticas fiscais e monetárias que já se aproximam dos seus limites.

Já o copo meio vazio está ligado à relutância dos Estados Unidos em traçarem um plano crível de médio prazo para lidar com seu explosivo déficit público e à dificuldade das autoridades econômicas europeias em enfrentar de forma coordenada e decisiva a crise dos países periféricos do continente, como Grécia, Portugal e Irlanda. A alta das commodities, por sua vez, está provocando inflação no mundo emergente, que pode atrapalhar a cambaleante recuperação do consumo nos países ricos, e está causando sérios problemas no Oriente Médio (as atenções de Davos voltaram-se ontem para a agitação popular e política no Egito).

Outra preocupação dos empresários e executivos em Davos é um clima de hostilidade da opinião pública em relação ao capitalismo e ao livre mercado. James Turley, chairman da Ernst & Young nos EUA, apontou “uma tensão crescente entre o setor público e o privado”. Para ele, esse clima hostil, combinado com incertezas regulatórias ligadas às reformas do presidente Barack Obama, estaria refreando o investimento. Turley admitiu, porém, que a situação melhorou com o movimento de Obama numa direção mais centrista.

China e Índia

A presença da China e da Índia em Davos continuou a crescer, tanto como tema de debate quanto no elenco de participantes. Os dois países tornaram-se menção obrigatória quando se fala na ascensão dos emergentes, com o Brasil também frequentemente lembrado. Segundo Azim Premji, chairman da Wipro, empresa indiana de tecnologia da informação, “em dez anos as economias do mundo emergente terão tamanho superior a US$ 20 trilhões, igual ao da economia americana (no mesmo momento)”.

Já o principal executivo do grupo WPP (marketing e comunicação), Martin Sorrell, classificou o mundo atual em “divisões”, de acordo com a atratividade para os investidores: na primeira divisão estão os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e mais 11 emergentes; na última, o Japão, com sua economia estagnada há décadas. E, nas intermediárias, países europeus e os Estados Unidos.

Para o chinês Zhu Min, ex-vice-presidente do Banco da China e assessor especial do Fundo Monetário Internacional (FMI), a China deve crescer 9,5% em 2011, ante 10,3% em 2010, e a Índia cerca de 8,5%, pouco menos do que os 8,9% do ano passado.

Os dois países, porém, estão com o uso da capacidade produtiva muito pressionado, com custos como trabalho e terra subindo. Um fator adicional de preocupação é que a alimentação, com alta explosiva dos preços, compõe 47% da inflação ao consumidor da Índia, e 34% da China.