Espanha acelerará reforma dos bancos regionais

Fonte: Estadão – GUSTAVO NICOLETTA – Agencia Estado

MADRI – A Espanha vai “acelerar” nesta semana a reforma dos bancos de poupança, que foram bastante atingidos pela crise hipotecária espanhola e geram receios sobre a economia local, de acordo com o vice-primeiro-ministro do país, Alfredo Perez Rubalcaba. Durante uma reunião do Partido Socialista, Rubalcaba disse que esta semana será “muito importante” para a economia da Espanha porque vai “acelerar” as reformas financeiras, principalmente a dos bancos de poupança.

 Ele não divulgou detalhes, mas na última sexta-feira anunciou que havia planos para “aumentar a solvência e a credibilidade” dessas instituições. Os maiores bancos da Espanha conseguiram contornar relativamente bem a crise financeira provocada pelo mercado de hipotecas subprime em 2009, já que não podem investir muito em empréstimos de alto risco.

Bancos menores, no entanto, que geralmente são controlados por políticos locais, foram amplamente atingidos pelo colapso do mercado de propriedades espanhol porque concederam um grande volume de crédito às construtoras e também na forma de hipotecas.

Quarenta bancos regionais, de um total de 45, estão participando de um processo de reestruturação do setor, conduzido pelo Banco da Espanha, o banco central do país. Apesar disso, os mercados continuam nervosos com a saúde dessas instituições financeiras, conhecidas como cajas e que respondem por aproximadamente metade de toda a poupança espanhola.

Todos os oito grandes bancos da Espanha foram aprovados nos testes de estresse promovidos pela União Europeia em julho de 2010, mas cinco de 19 bancos regionais foram reprovados. As informações são da Dow Jones.

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Piauí, a última fronteira agrícola do Brasil

Empreendedores ampliam plantações no Estado, cuja participação na produção nacional quase dobrou.

Fonte: Renée Pereira, de O Estado de S. Paulo

URUÇUÍ (PI) – No comando de uma retroescavadeira recém-comprada, o fazendeiro Cornélio Sanders, dono de quase 50 mil hectares no sul do Piauí, brigava com a tecnologia da nova aquisição para remover uma pedra no meio de sua propriedade. Apesar de não conhecer bem os sistemas ultramodernos da máquina, o gaúcho, natural da cidade de Não-me-Toque, não quis perder tempo. Deixou o ambiente confortável do escritório para trás e partiu para o campo, naquela tarde quente e abafada de dezembro. Queria deixar tudo preparado para a chuva que prometia cair ainda naquela noite para, no dia seguinte, iniciar a plantação.

No Piauí, é assim. Bastam algumas nuvens escuras no céu para os agricultores começarem a correr na preparação de máquinas, sementes e terra. Com o calor intenso, a umidade do solo acaba rápido. Por isso, algumas horas após a chuva, eles precisam iniciar o plantio. Caso contrário, terão de esperar até a próxima tempestade e correr o risco de perder o tempo da safra. “Aqui o clima é peculiar. A janela para a operação é muito curta, comparada a outros locais”, diz Gregory Sanders, de 31 anos, filho de Cornélio, que chegou a Uruçuí (maior produtor do Piauí) em 2001.

Ele conta que a ida do pai para o Piauí, depois de passar por Mato Grosso e Minas Gerais, foi uma decisão corajosa e arriscada. Afinal, o Estado vivia embalado pelo estigma de “terra pobre que nada produz”. Hoje o mantra é outro. O Piauí virou a última fronteira agrícola do País, reduto de endinheirados adeptos da alta tecnologia, máquinas e aviões de última geração.

Um retrato disso foi mostrado em recente relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que pôs o Piauí na liderança dos Estados com maior crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) em 2008. A expansão foi de 8,8%, acima da média nacional de 5,2%. Boa parte do desempenho se deveu aos resultados positivos da agricultura, cuja participação na produção nacional quase dobrou – de 0,6% para 1,1%.

Ainda é pouco diante das grandes potências nacionais, como Mato Grosso e Goiás. Mas o agronegócio apenas começou a engatinhar no Piauí. Segundo cálculos dos produtores, só 12% do potencial do Estado – calculado em 3 milhões de hectares – foi explorado, a maioria com soja. Entre 2000 e 2009, a área plantada cresceu 593%, contra a média nacional de 59%. Detalhe: o preço da terra ainda é considerado uma pechincha na região, apesar da demanda elevada.

Enquanto no sul do País um hectare custa em torno de R$ 10 mil, no Piauí não passa de R$ 2 mil, comenta Ribamar Mateus, da empresa imobiliária JRM. “O pagamento pode ser dividido em três vezes num prazo de dois anos”, diz o consultor, nascido em Uruçuí. Segundo ele, o preço da terra no sul do Piauí já foi bem mais barato, quase de graça. “Tem muita gente que comprou fazendas aqui pelo preço de uma carteira de cigarro (o hectare)”, lembra.

De olho nesse potencial, vários investidores – muitos estrangeiros – estão desembarcando na região. Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), nos últimos três anos, a venda de terras no Piauí para estrangeiros cresceu 138% (de 24.619 para 58.700 hectares) – quinto maior vendedor do País. O grupo argentino Los Grobo foi um dos primeiros a chegar por lá. A americana Bunge também demarcou território e construiu uma unidade de processamento de soja em Uruçuí. Agora quem está de olho nas terras piauienses são os chineses, que andam sondando oportunidades.

Brasileiros

Mas, apesar do interesse estrangeiro, são os brasileiros que estão desbravando o Piauí. A maioria tentou a sorte no Centro-Oeste antes de se aventurar por terras nordestinas. Um deles é o paranaense Altair Fianco, filho de agricultor familiar, natural de Pato Branco. Depois de uma breve passagem por São Gabriel do Oeste (MS), onde plantou soja em área arrendada, ele partiu para o Piauí. Em 1989, desembarcou em Uruçuí com a mulher e dois filhos. Comprou 9 mil hectares e montou sua fazenda de soja e milho.

Hoje Fianco tem 1.700 hectares de área plantada, mas a intenção é atingir 5 mil hectares nos próximos anos. “Procuro não me endividar. Prefiro fazer tudo aos poucos, de acordo com as minhas condições.” O fazendeiro garante que a produtividade das terras do Piauí já não perde em nada para as plantações de Mato Grosso e Paraná. “Hoje consigo tirar 60 sacas de soja por hectare. No caso do milho, consegue-se até 150 sacas”, comemora ele, que recebeu, em 2010, o título de cidadão piauiense.

A família Sanders chegou a Uruçuí quase uma década mais tarde para ser pioneira na plantação de algodão, sem deixar de lado outras culturas. Dos quase 50 mil hectares da Fazenda Progresso, 22.900 estão ocupados com soja, milho, algodão e eucalipto. Embora a soja ocupe uma fatia maior da propriedade, é o algodão que rende mais, diz Gregory, que hoje praticamente comanda a Fazenda Progresso, enquanto o pai dirige os negócios em Minas. Em 2005, inaugurou uma usina de beneficiamento de algodão, que abastece a indústria têxtil do Nordeste. A expectativa para os próximos anos é elevar a área plantada para 27 ou 28 mil hectares.

Um dos últimos a apostarem no Piauí foi a família Ioschpe. Em 2004, depois de ouvir maravilhas sobre o Estado, o empresário Ivoncy Ioschpe comprou 14 mil hectares na região. Três anos mais tarde, decidiu criar fazendas e contratou a Insolo, uma consultoria que desenvolvia tecnologia de alta precisão para o Cerrado. A parceria deu tão certo que, em 2008, a Insolo foi comprada pelos Ioschpes e se tornou a Insolo Agroindustrial, a maior investidora do Piauí.

Hoje a empresa tem 41 mil hectares de área plantada e produz 130 mil toneladas de grãos (soja, milho, arroz e sorgo). O objetivo é alcançar 120 mil hectares em quatro anos – 20 mil a cada ano. Isso significará produzir 400 mil toneladas de grãos. Até lá, serão investidos US$ 400 milhões, boa parte em tecnologia de alta precisão, diz o presidente da empresa, Salomão Ioschpe. “Estamos produzindo numa região com vocação para a agricultura em grande escala com uso intensivo de tecnologia. O Piauí tem tudo para se tornar a maior região para desenvolvimento de grãos no País.”