Lucrando em cima da desgraça alheia

PM do Rio diz que comerciantes que cobrarem preços abusivos serão presos.

Fonte:LUIZA SOUTO – COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RIO -DOS ENVIADOS ESPECIAIS A NOVA FRIBURGO

 O Comando Geral da PM do Rio determinou na manhã deste domingo a prisão de comerciantes que estiverem cobrando preços abusivos na região serrana do Rio. A medida é válida para as cidades de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis e tenta coibir a prática de crimes contra o consumidor.

Segundo o porta-voz da Polícia Militar, coronel Lima Castro, 400 homens da corporação ajudam nos trabalhos de socorro e segurança das vítimas das enchentes que deixaram mais de 600 mortos.

Depois da tragédia, a população de Nova Friburgo começou a sofrer com o racionamento de comida. Assustados com a dimensão dos estragos causados pelas chuvas, os moradores passaram a tentar estocar comida, apesar da grande quantidade de donativos enviada para a região. Isso provocou uma disparada nos preços. A reportagem presenciou ontem (15) a imposição de cotas de comida para os compradores em supermercados do centro de Nova Friburgo.

Um dos poucos locais abertos restringiu as compras a três itens por pessoas. O racionamento levou, em alguns casos, a uma disparada nos preços. Em Campo do Coelho, localidade de Nova Friburgo, uma vela custa R$ 9 e o litro do leite já sai por R$ 6. As autoridades já alertaram a população de que não há razão para se fazer estoque de comida.

A prefeitura de Nova Friburgo chegou a fazer um apelo ontem para que as pessoas enviem velas para a cidade

“O [comandante-geral da PM] coronel Mário Sérgio está em Teresópolis participando de uma reunião com o general Elito, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e com o prefeito da cidade, Mauro Jorge, discutindo as ações de cunho humanitário e também o número do efetivo nos batalhões. Nós mandamos 400 homens para reforçar o policiamento”, explicou Lima Castro à Folha.

De acordo com ele, esses agentes vão trabalhar em conjunto com policiais do 30º BPM (Teresópolis), 26º BPM (Petrópolis) e com o 11º BPM (Nova Friburgo).
“Parte deles vai ajudar também a defesa civil e os bombeiros”.

A região serrana é responsável pela produção de cerca de 70% das hortaliças no Estado do Rio. A tragédia provocada pelas chuvas já afetou os preços na região e na capital.

TRAGÉDIA

O número de mortos em consequência das chuvas em cinco municípios da região serrana do Rio chegou a 613 na noite de sábado (14), segundo balanço divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil. Equipes ainda buscam vítimas.

As mortes ocorreram em Nova Friburgo (274), Teresópolis (263), Petrópolis (55), Sumidouro (19) e São José do Vale do Rio Preto (2). Inicialmente, a Prefeitura de São José do Vale do Rio Preto havia informado que quatro pessoas haviam morrido na cidade, mas a informação foi corrigida na tarde deste sábado.

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), decretou neste domingo estado de calamidade pública nos municípios de Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis, Bom Jardim, São José do Vale do Rio Preto, Sumidouro e Areal.

No sábado (15), o governador já havia decretado luto oficial de sete dias no Estado e de três dias no Brasil

GOVERNO FEDERAL

A presidente Dilma Rousseff anunciou na sexta-feira (14) o envio de R$ 100 milhões para ajudar as cidades atingidas pelas chuvas no Estado do Rio de Janeiro.

O dinheiro faz parte de um total de R$ 780 milhões liberados por Dilma, por meio de medida provisória editada na quarta-feira (12), para as cidades e Estados prejudicados pelas chuvas.

A ordem de acelerar o repasse das verbas foi determinado pela presidente, em reunião com seus 37 ministros, hoje à tarde, no Palácio do Planalto. De acordo com o governo, R$ 50 milhões estarão depositados na conta do governo do Rio de Janeiro e dos municípios afetados pela chuva na região serrana do Rio até segunda-feira (17).

O ministro da Integração Nacional também anunciou a criação de um comando unificado coordenado pelo Ministério da Defesa para atuar no resgate de corpos e no atendimento a desabrigados e feridos por conta das chuvas na região serrana do Rio.

O governo também decidiu repactuar e liberar novas linhas de financiamento para recuperar o setor de hortifruti, uma das principais atividades produtivas nas cidades atingidas no Rio de Janeiro. A indústria de lingerie, símbolo de Nova Friburgo, também será beneficiada por esses financiamentos.

Na quinta-feira (13), o governo federal já tinha anunciado a liberação do saque do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) para os trabalhadores das áreas afetadas e ampliou o limite do valor a ser resgatado de 4.650 reais para 5.400 reais.

SUSTO

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), sentiu ontem (15) na pele o efeito das chuvas na região serrana. Com visita programada a Nova Friburgo para as 11h, ele não conseguiu pousar na cidade de helicóptero e teve que descer em Cachoeiras de Macacu, a 40 km.

No meio do caminho, na rodovia estadual RJ-116, caiu uma chuva forte e houve um deslizamento abaixo do nível do asfalto, que começou a se desfazer. “É assustador. De repente a água vem e a estrada que estava semibloqueada começa a ruir”, disse Cabral.

Anteontem (14), Cabral afirmou hoje que haverá o momento de se fazer “autocrítica” e “avaliação” sobre a tragédia na região serrana, mas ainda não é hora.

RISCO

Reportagem publicada na edição de sábado (15) da Folha mostra que um estudo encomendado pelo próprio Estado do Rio de Janeiro já alertava, desde novembro de 2008, sobre o risco de uma tragédia na região serrana fluminense.

A situação mais grave, segundo o relatório, era exatamente em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, os municípios mais devastados pelas chuvas e que registram o maior número de mortes. Essas cidades tiveram, historicamente, o maior número de deslizamentos de terra.

O estudo apontou a necessidade do mapeamento de áreas de risco e sugeriu medidas como a recuperação da vegetação, principalmente em Nova Friburgo, que tem maior extensão de florestas. O secretário do Ambiente do Rio, Carlos Minc, disse que o mapeamento de áreas de risco foi feito, faltando “apenas” a retirada dos moradores, e que os parques florestais da região também foram ampliados.

O coordenador de Defesa Civil de Petrópolis afirmou que o aviso passado pelos institutos de meteorologia não foi suficiente para disparar o sistema de alerta da cidade.

Segundo o coronel Carlos Francisco De Paula, a previsão repassada pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), com possibilidade de ocorrência de chuvas moderadas a fortes, não dava a dimensão da chuva que acabou devastando boa parte das cidades serranas.

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