Alimentos e serviços devem manter a inflação alta pelos próximos 5 meses

Para especialistas, índice anualizado deve superar os 6% nos próximos meses, bem acima do centro da meta traçada pelo governo.

Fonte: Márcia De Chiara, de O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO – O brasileiro terá de enfrentar pelo menos cinco meses de inflação alta pela frente. No rol dos aumentos de preços previstos para a virada do ano estão os reajustes das mensalidades escolares, das passagens de ônibus e dos aluguéis, todos numa faixa que deve superar 7%, além da forte pressão dos alimentos que deve continuar até a entrada da safra de grãos, marcada para o fim do primeiro trimestre.

A inflação acumulada em 12 meses pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que encerrou outubro em 5,2%, pode passar de 6% em dezembro, janeiro e fevereiro, preveem economistas. Se confirmado, o resultado acumulado pode superar no período, em mais de um ponto e meio porcentual, o centro da meta de inflação (4,5%).

As projeções de inflação para os próximos meses foram revistas para cima na semana passada pelo mercado, depois que o IPCA-15, prévia da medida oficial de inflação, superou as expectativas e atingiu 0,86% em novembro. Metade desse resultado veio da alta dos alimentos, que não deve dar trégua até março. Normalmente, em janeiro e fevereiro, a alta dos alimentos ganha força com a elevação dos preços das hortaliças afetadas pelas chuvas de verão. Só que esse fator sazonal pode agravar um quadro que já não é favorável.

Risco. A comida é considerada o maior fator de risco da inflação para 2011. Mesmo assim, o grande foco de pressão para manter a inflação em níveis elevados está nos preços dos serviços, que já vêm ao longo deste ano sendo sustentados pelo aumento do emprego e da renda, que mantêm o consumo aquecido.

Combustível para essa demanda existe. Em outubro, a taxa oficial de desemprego atingiu 6,1%, a menor marca desde 2002, o início da série histórica. E a renda média real do brasileiro cresceu 6,5% na comparação com outubro de 2009, a maior expansão anual desde junho de 2006.

“A maior pressão inflacionária para 2011 está nos preços livres (alimentos e serviços), mesmo com a alta de 10% do IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) acumulada em 2010”, afirma a economista do Banco Santander, Tatiana Pinheiro.

O IGP-M, calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), é usado total ou parcialmente como indexador de vários contratos privados, como aluguéis e mensalidades escolares, e preços administrados, como tarifas de energia e de pedágio, por exemplo. Em 2009, o indicador fechou o ano com deflação de 1,7%. Isso fez com que alguns preços balizados pelo indicador não tivessem reajustes este ano.

Mas, para 2011, o cenário é diferente. O IGP-M subiu 10,29% até a segunda prévia de novembro, o que chancela reajustes significativos no curto prazo dos preços regidos por esses contratos. “O efeito da indexação será mais forte em 2011 do que foi neste ano”, prevê o coordenador de Análises Econômicas da FGV, Salomão Quadros. Ele pondera que essa pressão da indexação sobre os preços pode ser compensada parcialmente se o governo optar por não aumentar o salário mínimo acima da inflação.

Sem alívio. “Não vejo nada que alivie a inflação nos próximos meses. Dezembro vai ser complicado para a inflação, porque o consumidor tem mais renda no bolso”, diz o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, Antonio Evaldo Comune. Ele prevê que o ano comece forte, com inflação mensal na casa de 1%, já contando com reajustes das escolas, das tarifas de ônibus e do imposto predial.

Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, calcula que o IPCA suba, em média, 0,80% ao mês entre novembro e fevereiro. “Vai ser um começo de ano complicado para a nova diretoria do Banco Central.” Ele atribui a maior parte da aceleração da inflação à disparada do preço dos alimentos.

“De meados para o fim de outubro, fui surpreendido por um fôlego adicional no preço das commodities agrícolas. E, com os dados da segunda prévia do IGP-M de novembro, ficou claro que podemos ter um início de ano com potencial de alta de preços dos alimentos no varejo”, diz Quadros, da FGV.

Mais da metade do IGP-M (60%) vem da variação dos preços no atacado, entre os quais estão os produtos agropecuários, que subiram 4,65% na segunda prévia deste mês. O IGP-M é uma espécie de indicador antecedente e indica o que deve ocorrer com os preços ao consumidor nos meses seguintes.

O movimento de alta dos preços das matérias-primas no atacado, na segunda prévia de novembro, não se trata, segundo Quadros, de algo pontual. O preço da soja, carnes bovina e suína, rações, fertilizantes, metais, como alumínio, níquel e zinco, e produtos petroquímicos estão acelerados. Ele destaca que a alta das matérias-primas este ano está relacionada com uma reação às quedas ocorridas no fim de 2008 e parte de 2009 por causa da crise.

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